Terminou hoje meu evento mainstream favorito. Não escrevi nada a respeito, em especial, por dois motivos:
1) Não estava em uma boa fase para produzir textos;
2) Queria evitar cair na armadilha de bancar o "especialista", coisa que quase todo mundo que comenta o assunto faz.
Agora que tudo acabou, a euforia passou e todo mundo começa a lembrar que, "puta que pariu, a próxima já é aqui!", sinto que já posso escrever algo de que eu não vá me arrepender depois.
Não escrevo para lamentar desempenhos ou cobrar medalhas de compatriotas que dedicam suas vidas a esportes pouco valorizados, dos quais só conheço as regras mais básicas porque pesquisei na Wikipédia. Também não quero fazer comentar obras faraônicas, elefantes brancos, orçamentos bilionários, dentre outras expressões que dominarão os noticiários nacionais nesses próximos quatro anos.
Não. Estou escrevendo como leigo e ignorante mesmo. São observações pequenas e desinteressadas. Palpites. Coisa de quem não tem mais o que fazer num domingo agora que as Olimpíadas terminaram.
a) Eu gosto de acompanhar o quadro de medalhas pela estatística. Ficar na expectativa para ver se os Estados Unidos (e a China) terão um desempenho menos hegemônico e se aproximarão mais dos outros pobres mortais. Isso nunca acontece, mas ainda tenho esperanças. Mas acho que o pessoal não deveria dar tanta importância para algo que nem oficial é. Tanto o público quanto a imprensa. No fim das contas, ele não é nem mesmo um bom parâmetro para identificarmos se o esporte é valorizado ou não em determinado país. Alguns esportes simplesmente rendem mais medalhas que outros. Esportes individuais têm mais medalhas em disputa do que esportes coletivos. Claro, não é por acaso que os Estados Unidos estão sempre no topo. Talvez os três ou quatro primeiros colocados - que costumam ter um número absurdo de medalhas - realmente possuem políticas fortes de incentivo ao esporte e colhem os louros durante os eventos. Mas o resto é meio circunstancial. Então, lamento, mas não existe fórmula fácil para isso: para saber se um país está evoluindo ou não é preciso analisar caso por caso. Contusões, nervosismo, zebras, doping, erros de arbitragem... tudo entra na panela e acaba definindo a parte intermediária da tabela.
b) É inevitável. Em toda edição discute-se se o futebol deveria fazer parte das Olimpíadas ou não. Claro que, futebol, nesse caso, refere-se apenas ao futebol masculino (eu acho. Porque se tirarem o futebol feminino dos Jogos, seria como anunciar a extinção da modalidade). Não é novidade que ninguém liga a mínima para o torneio masculino de futebol. A começar pelos próprios atletas. Para eles, vale muito mais conquistar uma Copa do Mundo, uma Champions League, ou mesmo qualquer liga nacional européia. O futebol masculino é a única modalidade, até onde eu sei, que impõe um limite de idade, perdoando três exceções. O baseball acabou limado das Olimpíadas, em parte, por aparentar desinteresse semelhante. Não arriscaria dizer se o futebol masculino correria o mesmo risco, mas é evidente que a disputa necessita mais publicidade.
Particularmente, acho que o futebol masculino não faria a menor falta nos Jogos Olímpicos. Eu costumo ser contra modalidades exclusivas para um gênero só (ainda acho inacreditável que essa foi a primeira edição que contou com o boxe feminino. É muito atraso social para minha cabeça.E já que tocamos nesse ponto, sim, eu acho que deveriam criar disputas masculinas de nado sincronizado e ginástica rítmica. Ou então excluí-los de vez das Olimpíadas. Para mim, se um esporte não consegue comportar disputas de ambos os sexos, não deveria ter a honra de ser considerado um esporte olímpico), mas não acho que o futebol masculino seria prejudicado nesse caso (diferentemente das boxeadoras e dos ginastas rítmicos, o jogadores de futebol ainda teriam inúmeras oportunidades para exercerem sua profissão. Oportunidades bem melhores, na verdade).
Uma saída para isso, talvez, seria substituir o futebol masculino pelo futsal. Aí teríamos futebol feminino e futsal masculino. Assim como tínhamos baseball masculino e softball feminino. Abriria margem para muita discussão, mas acho que já divaguei demais.
c) Já que tocamos em questões de gênero, vou rascunhar algumas linhas sobre esportes mistos: acho que o hipismo é o único em que homens e mulheres competem em igualdade. Mas também temos duplas mistas de tênis e badminton. Eu particularmente gosto.E fico pensando se não daria certo em outros esportes. Duplas mistas de vôlei de praia? Revezamento 4x100 com dois homens e duas mulheres? Talvez equipes mistas de esgrima? Sei lá, não sou especialista em nenhum desses esportes, mas fico pensando...
d) Vi muita gente dizer ontem que o Brasil tinha deixado de ser o país do futebol para se tornar o país do vôlei. Por causa da prata melancólica do futebol masculino em uma competição na qual o time era um dos poucos que parecia levar a sério e, principalmente devido ao surpreendente ouro do vôlei feminino. Não acho que um esporte deveria anular o outro, mas eu realmente gostaria de acreditar que alguma modalidade estivesse realmente ameaçando a hegemonia do futebol. Não está.
Agora que os Jogos terminaram, é só ver para qual esporte os principais portais e programas esportivos estão voltando suas atenções. Quantos times de futebol você conhece, comparado ao número de clubes de vôlei dos quais você sabe o nome? Quanto ganha um jogador de futebol da seleção? E uma jogadora de vôlei? Quantas pessoas você conhece que se juntam no final de semana para jogar vôlei? E futebol? Nós nem ao menos sabemos em que clubes jogam as atletas da seleção...
O Brasil está tendo um desempenho muito melhor no vôlei do que no futebol nos últimos anos. Isso parece incontestável. Mas parece que isso não é o suficiente para o pessoal que decide o que é rentável e o que não é...
e) Olimpíadas encerradas, Medalhas distribuídas, festa de encerramento... terminou, não?
Na verdade, agora começam as Paraolimpíadas. Que não terão nem 10% da atenção que os Jogos Olímpicos receberam. Dúvida sincera: por que os eventos paraolímpicos não acontecem dentro da própria Olimpíada? Quero dizer, ao invés de termos dois grandes eventos durando quinze dias cada, teríamos um megaevento com duração de um mês. O que impede? Estrutura? Calendário? Lobby? Ou é só preconceito mesmo?
Pelo menos os devotos do quadro de medalhas ficariam satisfeitos, já que os para-atletas brasileiros costumam ir muito bem em suas provas...
f) Foram três medalhas de ouro para o Brasil nesta edição. Uma no judô, uma na ginástica e uma no vôlei feminino. Espero que a imprensa e o público não se lembrem desses atletas apenas em 2016 (ou no Pan Americano de 2015) para cobrar mais medalhas de ouro. Campeonatos e Mundiais têm quase sempre. Um pouco de atenção e incentivo seria bom. É claro que torcida não repara a falta de estrutura e verba, mas ao menos, é uma maneira de mostrar que temos interesse.Quem sabe assim o investimento não vem? Isso vale também para as medalhas de prata, de bronze, para aqueles que bateram na trave e mesmo aqueles que não chegaram nem perto.
Ou então, se tiver tempo e disposição, se inscrever em uma modalidade e tentar trazer o ouro com seu próprio suor. Por que só assistir e cobrar, não é mesmo?
g) Será que rola de ir assistir algum evento ao vivo em 2016?